A voz se cala. Legado

“Exatamente às 13 horas, como tem acontecido nestes últimos 21 anos, o Brasil inteiro deveria estar ouvindo a voz bonita e bem timbrada de Cesar Ladeira, o mais completo locutor de todos os tempos”. Com estas palavras, Aurélio de Andrade, um dos fundadores da Rádio Nacional, anunciou na tarde do dia 8 de setembro de 1969 a primeira “Crônica da Cidade” sem Cesar Ladeira. Cinco horas antes, o speaker mais prestigiado do país, havia falecido, vítima de um acidente vascular cerebral numa clínica no bairro de Botafogo para onde fora levado, após sentir-se mal em casa. Tinha 58 anos.

Centenas de admiradores e amigos foram despedir-se de Cesar no cemitério São João Batista. Queriam dar adeus ao profissional competente que por décadas, com sua voz marcante entrava todos os dias em lares de todo o Brasil e ao colega de trabalho que apesar do status que atingira ao longo de uma carreira vitoriosa, jamais perdera o bom humor ou contaminara-se com o mal da arrogância.

Na Rádio Nacional, além da “Crônica da Cidade” e de “Seu criado, obrigado”, Cesar ultimamente, dedicava-se à leitura das obras de Júlio Verne, sendo a mais recente, “A volta ao mundo em 80 dias”. E no cinema, onde havia participado em 16 filmes, seus últimos trabalhos foram em “O bravo guerreiro”, de Gustavo Dahl; “Os herdeiros”, de Cacá Diegues e “Salário mínimo”, este último, dirigido por Adhemar Gonzaga, padrasto de sua esposa e que contava com seu filho, Cesar, como assistente de direção. O rapaz acabou seguindo carreira no cinema, como diretor e roteirista, assinando seus trabalhos também com o nome Cesar Ladeira, enquanto o caçula, Renato, seguiu adiante com a música continuando com seu conjunto, The Bubbles – posteriormente chamado A Bolha – e mais tarde formando o “Herva Doce”, de grande sucesso no país.

Legado

Até seu falecimento, em 2008, Renata Fronzi dedicou-se a manter viva a memória de Cesar, sempre fazendo questão de lembrar o seu pioneirismo no rádio e os trabalhos que realizou. Em 9 de julho de 1977, nos 45 anos da Revolução de 32, conseguiu que os restos mortais do marido  fossem depositados no Obelisco Mausoléu do Ibirapuera, onde descansam os mortos na Revolução Constitucionalista. Renata nunca mais se casou novamente ou se envolveu com outro homem. Numa entrevista ao jornalista Renato Sérgio para a revista Fatos & Fotos em fevereiro de 1979, disse sobre seu casamento com Cesar: “Durou exatamente 20 anos. Até a morte dele. E teria durado até hoje, porque eu acredito muito em bilhete premiado. E o meu era”.

Em todos os aniversários da Revolução Constitucionalista, o nome Cesar Ladeira é lembrado. A gravação “25 anos depois”, lançada em disco em 1957, em que ele lia uma crônica de sua autoria exaltando o heroísmo do povo paulista na luta pela democracia, é sempre reproduzida. “Paris Belfort”, o tema que Cesar usava durante as suas transmissões em 1932, tornou-se o hino da Revolução Constitucionalista.

O rádio, apesar de todas as previsões pessimistas, de não contar mais com artistas contratados ou grandes auditórios onde os programas ao vivo eram realizados, ainda continua um veículo de comunicação bastante popular. E a internet veio tornar seu alcance ainda maior, com o surgimento das rádios on line. Certamente, se vivesse na época atual, com seu espírito desbravador, Cesar Ladeira estaria realizando algum novo projeto com tantas possibilidades em mãos. E de certa forma ele está ao ter sua história contada aqui.